sábado, maio 17, 2008

Mulherzinha Contemporânea não-sei-mais-que-número

A MC é cidadã do mundo, isto é, pode morar em qualquer lugar. Desde que tenha água quente, travesseiros de pena de ganso, internet, celular, uma boa farmácia com boa variedade de cosméticos e um bom cabeleireiro. Sem isso é demais.

***

Sair da cidade e continuar perto dela cria uma relação bipolar com as origens.

Uma hora acha-se estar no caminho certo, que a vida precisa sempre tomar novos rumos. Na outra, catapum!, bate a sensação “o que eu estou fazendo aqui?”.

O Rio de Janeiro, por exemplo, que cidade sedutora, cheia de curvas, sorrisos, sol que esquenta e gente de fala mansa. Criancinhas correndo e aprendendo a andar de bicicleta no parque dos patins aguçam o mais parco dos instintos maternais, a Lapa engarrafada enche os corações solteiros de esperanças, o baixo Leblon aberto por toda a madrugada faz qualquer um se sentir dono da cidade.

Daí que a pessoa sai do Rio. E vai ao cinema sem encontrar uma alma conhecida, toma um café sem precisar abaixar a cabeça para não ter que falar com “aquele” mala, não consegue escolher que peça de teatro ver de tantas opções, e sente frio na barriga de olhar um mapa e não fazer idéia do que a espera do outro lado do aeroporto central.

De repente, catapum de novo, promoção de companhia aérea. Compulsão por compra de passagens e o avião chega e te coloca de cara com o pão de açúcar. E sim, o pão de açúcar entrava no seu campus universitário. Literalmente. Lágrimas nos olhos, amigos que podem sorrir e gargalhar, porque ser feliz não é vergonha nem sinônimo de que se está trabalhando pouco.

Mais de três dias e chega. Porque o Rio de Janeiro tem que ser a melhor cidade do mundo e querer sair dele é quase uma heresia. Difícil é estar numa cidade em que os pensamentos sobre ela são mais do que amorfos, em que se julga qualquer tipo de atitude que os desvie e que, ironia ou não, em plena era da globalização, não achar que se vai morar em um mesmo lugar pra sempre é crime inafiançável contra a pátria – a carioca, claro.

-Ahn? Você morava no Arpoador? E você saiu de lá por que mesmo, hein?

Mas aí faz sol e o tempo não esquenta. E o caminho exato pra qualquer lugar é uma decisão um pouco arriscada. E acordar vendo o mar faz falta.

quarta-feira, abril 02, 2008

Sampa

A um quarteirão da Ipiranga com a São João, tem uma academia de ginástica em reforma. Chama-se Buttsellers.

Acho que não é bem no coração que alguma coisa acontece.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Mulherzinha contemporânea XIII

A MC está se guardando para quando o carnaval chegar. Está doidinha para o grande momento: Vou beijar-te agora/ Não me leve a mal/ hoje é carnaval


quarta-feira, dezembro 26, 2007

Mulherzinha contemporânea XII
(uma para cada mês do ano)

A MC detesta correntes, maldições, superstições. Mas virada do ano é coisa séria: roupa branca, calcinha cor da pele com fitinha cor de rosa, sapato amarelo. E não pode ver uma possibilidade de má sorte, que quer logo espantar. Estou com ela e não abro.


Maldição dos blogues


A Clara passou a maldição. Lá vai:

"Um grupo de indígenas surgiu da cidade baixa em direção ao mercado, carregando enormes blocos de sal amarrados nas costas"
Só para fumantes, de Julio Ramón Ribeiro.

As regras:
1 - procurar um livro próximo;
2 - abri-lo na página 161;
3 - procurar a quinta frase completa;
4 - postá-la no seu blog;
5 - não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6 - repassar a outros cinco blogs.


Os amaldiçoados: Ana Hupe, Ciça (que não sei se lê), Mion (para inaugurar o rua do ouro), Selkie, Bernardo MF (só porque me obrigou a dar o endereço).

A frase:
O primeiro livro (Cenas Londrinas, Virginia Woolf) não chegava à pagina 161. O segundo também não chegava à tal 161 (A Arte do teatro: entre tradição e vanguarda. Meyerhold e a cena contemporânea), o terceiro mais próximo era a versão em espanhol do Ressurreição do Tolstói, achei que não valia. O quarto, um infanto-juvenil em outra língua nórdica, também não valia, o quinto, ia parecer que era só para me fazer de cool, até que cheguei a esse, na ponta da estante, porque tinha pegado ontem para uma referência de formatação.

Conclusões: Leio livros muito curtos e preciso parar de amontoar livros que não estou lendo na minha escrivaninha.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Arte para crianças
Escrever é que nem segurar água com peneira.
Quem disse foi o Manoel de Barros

Mulherzinha Contemporânea XI

Mergulhada em Literatura, Graciliano Ramos e autobiografia, a MC esquece teorias, Infância, Cárcere e Caetés e se deixa encantar pelas cartas que ele escrevia para Heloisa Medeiros – que mais tarde viria a ser Heloisa Ramos, ou Ló. Cartas de amor: nada mais denunciador de estilo, nada mais autobiográfico, nada mais Mulherzinha! “Romantismo, minha querida Heloísa, romantismo, e ruim”. A MC morreu de inveja: quer romantismo ruim pra ela.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Mulherzinha Contemporânea X

A MC escolheu a primeira resolução da lista de resoluções do ano novo, que ainda vai mudar umas cinqüenta vezes – no fundo, ela sabe disso. Vai namorar um poeta.

Elas, as palavras

Ele quase não sorri, mas tem as piadas ruins de quem ri por pouco, de quem ri e ninguém em volta entende o porquê, mas acaba se contagiando pela gargalhada. Ele não é muito afeito ao contato físico, mas tem as palavras de quem abraça apertado quando encontra, de quem coloca no colo e faz cafuné, de quem rouba beijo, de quem, na mesa de bar, sem olhar nos olhos, enquanto ninguém percebe nada, encosta na mão e não solta, dizendo tudo. Ele diz o que os gestos não precisam dizer, mas ele diz.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Mulherzinha Contemporânea IX

É novembro e a MC fez uma planilha de afazeres, devidamente salva em seu Palmtop, que em breve será trocado por um blackberry. Por causa da loucura, só vai à manicure duas vezes, cabeleireiro só em dezembro, a corrida diminuiu de três para duas vezes na semana, de 50 para 30 minutos. Mas não abre mão do pilates - tudo tem limite.


Fevereiro já!

Novembro é muito mais que um mês. É um estado, uma forma única e inigualável de perceber o mundo e a vida. De repente, olha-se o calendário para, ingenuamente, tentar marcar aquele almocinho, com aquele camarada a quem já se deve um encontro pra colocar o papo em dia há muito tempo.

Num susto novembresco, você repara que a sua lista de afazeres nos próximos 30 dias preencheria facilmente dois anos se pudesse ser cumprida em tempo ideal. O problema é que depois do dia 30, benzinho, só em fevereiro. Colocar papo em dia é coisa de julho, agosto, nos dias mais curtos do ano, calma é palavra proibida, número 1 do Index.

O maior desafio da ordem mundial e da compensação universal não é erradicar a miséria do mundo – isso todo mundo já previu. Quero ver alguém acreditar que um dia, em novembro, será possível ir à pé, porque não há pressa.

Até lá, encontros marcados ou casuais em novembro, que não tenham sido agendados com 45 dias de antecedência e não tenham hora definida de início e fim, ficam no limbo do “vamos marcar!”. E a resposta para o corriqueiro “Como vai?” será “Novembro. E você? Março?”

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Mais sobre novembro nos arquivos aqui do AN.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Mulherzinha contemporânea VIII

No day-after, a MC gosta de receber mensagens de texto perspicazes no celular – dessas que abrem um leve sorriso. E responde no mesmo nível. Se precisar, até desliga o T9 para escrever palavras como perspicaz no telefone.



Mulherzinha ou sem um título melhor

Flertava. Por email. Os auges de ansiedade eram as palavras com duplos significados. As decepções, as dissimulações, o pode-ser-como-pode-não-ser, tudo corria como num flerte normal. Só que por email.

Achava que a modernidade tinha acabado com o romantismo das cartinhas. Essas antigas senhoras eram preciosismos de casais apaixonados à moda antiga ou de amigas de infância que precisassem dar fim às coleções de papel de carta.

– As cartas, hoje em dia, são entregues em mãos, não chegam mais pelo correio, e continuam servindo pra dizer com as palavras da mão, aquilo que as palavras da boca não sabem ou não têm coragem de dizer. Disse, em voz alta, olhando pro espelho do banheiro.

O problema era que gostava de falar como se escreve. Ou de escrever como falava, não sabia bem. “O que eu faço com as cartinhas então? Ai.”, pensou. As questões da escrita eram indizíveis.


quarta-feira, outubro 31, 2007

Mulherzinha Contemporânea VII

Contrariando tabus, a MC não evita os filmes pornográficos – eles fazem parte da profissão. Ela assume, fica famosa e compra sapatos novos pra dar entrevista sobre as imagens escabrosas que vê todos os dias.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Mulherzinha contemporânea VI

A MC não gosta de trocadilhos. Mas não contém a risada, se vier de um gatinho.
A blogueira atinge um nível inimaginável de insanidade e faz versinhos ruins, com trocadilhos piores.

O jornalista colunista é como o fisioterapeuta e o ortopedista: ele cuida da coluna.
E como diz o ditado "casa de ferreiro, espeto de pau", se ele não tiver boa postura, a coluna fica mal.

duh.

terça-feira, outubro 23, 2007

MC fica de mau-humor e faz amigos

Estava tão puta, mas tão puta, com o ser humano, que jamais poderia escrever sobre ele de novo. Teve que passar o dia entre os bichos. Foi para o zoológico e conversou com os flamingos, seus novos amigos - gays e delicados.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Mulherzinha Contemporânea V

A MC simpatizou com a vaquinha do baixo bebê e com a vaquinha que diz Mu em frente ao cinema. Está apaixonada pelo Capitão Nascimento, mas não, não acha que ele é vítima nem herói.

Em uma mesa de bar no Rio, ou você fala de Tropa de Elite, ou da última vaca, que você ainda não tinha visto. Vaquinha (ops, quer dizer, 01), pede pra sair!

Fomos invadidos pelas vacas. Andar pelo Rio de Janeiro, hoje, é sinônimo de encontrar a bovininha. Mu-mu é a mais nova melhor amiga do transeunte. Ela anda solta por aí, nada os quatro estilos, lê Drummond junto com o Drummond, fala no orelhão e usa salto alto vermelho com a catiguria da Bebel de Camila Pitanga. Conquistou os corações de ricos, pobres, crianças, velhos, carnívoros e vegetarianos.

Da janela da minha casa não se vê nenhuma, graças. Graças, em parte, porque sou mal-humorada e depois de dois dias vendo vacas a cada esquina, queria que elas saíssem andando e fossem pastar em outra freguesia. Não entendi bem o motivo de espalharem vacas pela cidade. Na Argentina, no país onde se come vacas nas três refeições, pode até ter um sentido filosófico e antropofágico maior. Mas aqui? O país dos preços baixos no quilo do frango? Duvido que espalhassem franguinhos estilizados por aí. Porque ninguém gosta dos franguinhos, ninguém ia querer tirar foto com o franguinho. Frangos, galinhas e familiares não despertam o amor de ninguém. Nem a compaixão.

Rá! Descobri tudo! A cow-parade é uma tentativa (subliminar dos ativistas vegetarianos) de fazer com que paremos de comer carne. Eu sabia, eu sabia. Não podia ser obra de um artista que gosta de churrascaria, criar amor pela vaquinha. Eles subverteram a ordem do bifinho. Querem acabar com a Porcão, com o Filé de Ouro, com o nosso Filé a Osvaldo Aranha! Querem o alho só para eles!

Carnívoros cariocas e simpatizantes, uni-vos! Não dêem bola para as vaquinhas! Deixem as mu-mus que estão soltas em paz! Elas não têm um Kiwi dentro delas, se a gente cortar ao meio. Elas podem oferecer prazeres muito melhores que um Kiwi gigante.

domingo, setembro 30, 2007

Mulherzinha Contemporânea IV

A MC gosta de "filmes cabeça" – feitos pelo Rohmer.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Mulherzinha Contemporânea III

A MC continua lendo melodramas e folhetins. Mas transforma isso em projeto de pesquisa acadêmica.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Mulherzinha Contemporânea II

- Afinal, que mal fazem uns beijinhos? Mas porque o cafa não ligou depois daquele inesquecível encontro de almas? Eu juro, eu senti que não era só eu que estava no clima, sabe?

Dito por um espécime de MC num café, acompanhado de trufa light, no encontro semanal com uma amigaaa.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Mulherzinha Contemporânea I

A MC sente falta dos hábitos de outras épocas, mas não larga o osso de umas conquistas desse aqui. É a típica “não pode dar a mão, quer logo o braço”.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Cansou-se.

Queria alguém com quem um relacionamento de verdade fosse possível.

Com quem se entendesse intelectualmente, mas também na cama.

Com quem brigasse às vezes, mas pudesse resolver tudo com um pequeno barraco particular, entre quatro paredes, e em poucas horas.

Com quem um desentendimento não criasse um clima de dias.

Com quem quisesse ter uma vida real e entendesse que a vida é feita de escolhas.

Com quem pudesse sempre contar, em todos os minutos, felizes e tristes, da sua vida.

Com quem fosse possível dar gargalhadas sem fim e também passar um dia inteiro em silêncio sem ouvir a pergunta “está tudo bem?”.

Com quem a entendesse pelo olhar, pelo peso do passo, pelo tempo no banho.

Com quem não fosse preciso explicar tudo o tempo todo.

Com quem entrelinhas fossem possíveis.

***

Tinha acabado de desistir de amores platônicos.